"Talvez as pessoas se sintam um pouco escandalizadas. Mas acredito que a maioria entenderá que tem que haver muita miséria neste país, um grande perigo para que os parlamentares se vejam obrigados a fazer algo assim", explica à AFP no escritório de seu partido em Pristina, a capital de Kosovo.
Desde outubro, ele e outros deputados paralisaram sistematicamente o Parlamento com bombas de gás lacrimogênio, uma ação condenada pela comunidade internacional e que provocou uma condenação a prisão domiciliar de Kurti.
Também foram realizadas manifestações nas ruas, igualmente reprimidas com gás lacrimogênio.
O principal motivo é o acordo com a Sérvia, promovido pela União Europeia, que dará mais poder à minoria sérvia do país. Os opositores temem que isto extrapole ainda mais as divisões étnicas e dê mais poder ao país vizinho, com que os kosovares albaneses já se enfrentaram em várias guerras nos anos 1990.
"Estamos totalmente decepcionados. Kosovo não é o que sonhamos que seria", disse Petrit Ramadani, um analista de sistemas de 32 anos que recorda a euforia de quase oito anos e que, na quarta-feira, no dia do aniversário de independência do país, participará de uma manifestação contra o governo.
Junto a outros kosovares, Ramadani acusa o governo atual de corrupção, atraso no desenvolvimento e de marginalização da maioria muçulmana deste país de 1,8 milhão de habitantes, 70% deles de menos de 35 anos e cerca de 40% desempregado, segundo dados do Banco Mundial.
- 'Esperança' de entrar na UE -
Países como a Sérvia, Espanha e Rússia continuam sem reconhecer a independência de Kosovo e o sonho de entrar na União Europeia parece mais distante do que nunca. Contudo, o ministro de Relações Exteriores, Hashim Thaci, que declarou a independência em 2008 e foi duas vezes primeiro-ministro, disse estar "cheio de esperança".
"O país está mudando, não somos perfeitos, sei que temos que fazer mais, mas estamos avançando", disse à AFP no edifício do governo, no centro de Pristina. Na fachada ainda há restos de um incêndio provocado pelas manifestações recentes.
"A violência é injustificável. Estamos na Europa, não em um país do Oriente Médio", afirma Thaci, de 47 anos, uma figura política em seu país e favorito para as presidenciais que serão celebradas neste ano.
Thaci liderou o Exército de Libertação de Kosovo e sempre negou as acusações que, durante a guerra, faziam uma relação entre ele e uma rede criminosa que cometia assassinatos e traficava órgãos.
Ele afirma que as negociações com a Sérvia serviram para assinar um acordo de pré-adesão à União Europeia em outubro, apoiado também pelos Estados Unidos, firme aliado de Kosovo desde os bombardeios da OTAN no final dos anos 1990 que deram fim à guerra.
Apesar de um folheto do Ministério das Relações Exteriores descrevendo Kosovo como um país superdinâmico com muitos cafés, festivais de cinema e onde convivem de maneira harmoniosa religiões e línguas, a realidade é muito distinta.
Em Kosovska Mitrovica, símbolo da divisão étnica, ainda existe uma ponte vigiada por forças da OTAN que separa a parte albanesa da parte sérvia da cidade, cheia de bandeiras sérvias e de pinturas favoráveis à Rússia.