Cartazes convocando protestos são vistos em Pristina, no dia 13 de fevereiro de 2016 Cartazes convocando protestos são vistos em Pristina, no dia 13 de fevereiro de 2016

Oito anos depois de declarar sua independência, os protestos no Parlamento e nas ruas contra um acordo para normalizar as relações com a Sérvia colocam em dúvida a capacidade do Kosovo em superar suas divisões.

Segundo Albin Kurti - um dos deputados da oposição que lançaram bombas de gás lacrimogênio no Parlamento em protesto - estas medidas radicais são necessárias para salvar o país.

"Talvez as pessoas se sintam um pouco escandalizadas. Mas acredito que a maioria entenderá que tem que haver muita miséria neste país, um grande perigo para que os parlamentares se vejam obrigados a fazer algo assim", explica à AFP no escritório de seu partido em Pristina, a capital de Kosovo.

Desde outubro, ele e outros deputados paralisaram sistematicamente o Parlamento com bombas de gás lacrimogênio, uma ação condenada pela comunidade internacional e que provocou uma condenação a prisão domiciliar de Kurti.

Também foram realizadas manifestações nas ruas, igualmente reprimidas com gás lacrimogênio.

O principal motivo é o acordo com a Sérvia, promovido pela União Europeia, que dará mais poder à minoria sérvia do país. Os opositores temem que isto extrapole ainda mais as divisões étnicas e dê mais poder ao país vizinho, com que os kosovares albaneses já se enfrentaram em várias guerras nos anos 1990.

"Estamos totalmente decepcionados. Kosovo não é o que sonhamos que seria", disse Petrit Ramadani, um analista de sistemas de 32 anos que recorda a euforia de quase oito anos e que, na quarta-feira, no dia do aniversário de independência do país, participará de uma manifestação contra o governo.

Junto a outros kosovares, Ramadani acusa o governo atual de corrupção, atraso no desenvolvimento e de marginalização da maioria muçulmana deste país de 1,8 milhão de habitantes, 70% deles de menos de 35 anos e cerca de 40% desempregado, segundo dados do Banco Mundial.

- 'Esperança' de entrar na UE -

Países como a Sérvia, Espanha e Rússia continuam sem reconhecer a independência de Kosovo e o sonho de entrar na União Europeia parece mais distante do que nunca. Contudo, o ministro de Relações Exteriores, Hashim Thaci, que declarou a independência em 2008 e foi duas vezes primeiro-ministro, disse estar "cheio de esperança".

"O país está mudando, não somos perfeitos, sei que temos que fazer mais, mas estamos avançando", disse à AFP no edifício do governo, no centro de Pristina. Na fachada ainda há restos de um incêndio provocado pelas manifestações recentes.

"A violência é injustificável. Estamos na Europa, não em um país do Oriente Médio", afirma Thaci, de 47 anos, uma figura política em seu país e favorito para as presidenciais que serão celebradas neste ano.

Thaci liderou o Exército de Libertação de Kosovo e sempre negou as acusações que, durante a guerra, faziam uma relação entre ele e uma rede criminosa que cometia assassinatos e traficava órgãos.

Ele afirma que as negociações com a Sérvia serviram para assinar um acordo de pré-adesão à União Europeia em outubro, apoiado também pelos Estados Unidos, firme aliado de Kosovo desde os bombardeios da OTAN no final dos anos 1990 que deram fim à guerra.

Apesar de um folheto do Ministério das Relações Exteriores descrevendo Kosovo como um país superdinâmico com muitos cafés, festivais de cinema e onde convivem de maneira harmoniosa religiões e línguas, a realidade é muito distinta.

Em Kosovska Mitrovica, símbolo da divisão étnica, ainda existe uma ponte vigiada por forças da OTAN que separa a parte albanesa da parte sérvia da cidade, cheia de bandeiras sérvias e de pinturas favoráveis à Rússia.

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