(Arquivo) O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, em uma visita aos Estados Unidos, em 3 de fevereiro de 2016 (Arquivo) O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, em uma visita aos Estados Unidos, em 3 de fevereiro de 2016

A guerrilha das Farc e o governo da Colômbia desistiram em separado do prazo fixado para assinar o acordo de paz em 23 de março e deixaram em aberto a opção para prorrogar as negociações mediadas por Cuba desde 2012 para encerrar mais de 50 anos de conflito armado.

O primeiro a admitir a prorrogação dos diálogos foi o presidente Juan Manuel Santos na quarta-feira.

"Depois de tanto esforço, depois de tanto tempo, se não alcançarmos em 23 de março um bom acordo, digo à outra parte que determinemos outra data, porque não vou cumprir um prazo com um mau acordo", afirmou o chefe de Estado, falando da Colômbia.

O líder das Farc Timoleón Jiménez, conhecido como "Timochenko", reforçou as declarações do presidente Santos.

"Concordo com o Presidente Santos que, para 23 de março, é materialmente impossível chegar a um acordo", escreveu no Twitter.

Mais cedo hoje, em Cuba, Joaquín Gómez, negociador das Forças Revolucionárias da Colômbia (Farc) em Havana, já havia apoiado a posição do presidente.

"Nos parece que o presidente Santos agiu com objetividade e estamos de acordo com o que ele disse, e achamos que, sim, que depois do dia 23, pode haver um acordo", afirmou Gómez à imprensa.

Neste sentido, insistiu em que "não há condições" para concluir as negociações no prazo de seis meses inicialmente estabelecido por Santos e Timoleón Jiménez ("Timochenko") em 23 de setembro passado, na capital cubana.

"Estamos de acordo, de maneira consensual, sobre acertar outra data", acrescentou Gómez.

Dessa maneira, as Farc e o governo Santos abriram caminho para uma prorrogação das discussões para concluir um acordo que termine com meio século de conflito com a guerrilha. Após depor as armas, as Farc esperam se transformar em um partido político.

Não existe, porém, ao menos de conhecimento público, uma nova data em discussão. Por parte das Farc, acredita-se que o acordo possa ser assinado até o final do ano.

O prazo de 23 de março tinha alimentado uma expectativa maior pela visita histórica que o presidente Barack Obama fará a Cuba entre 20 e 22 deste mês. O governo americano - que financiou durante anos a luta contra as Farc - apoia as negociações com esta guerrilha.

Zonas de desarmamento das Farc por definir

Atualmente, Farc e governo estão negociando o cessar-fogo bilateral definitivo (que inclui o desarmamento da guerrilha) e o mecanismo de referendamento dos acordos, últimos pontos do processo de paz acompanhado por Cuba, Noruega, Chile e Venezuela.

As partes já alcançaram um consenso parcial sobre a reforma agrária, a luta contra o tráfico de drogas, a participação política dos combatentes, a justiça e a indenização às vítimas. Agora, debatem as complexas questões relativas ao fim do conflito, como o cessar-fogo e a entrega definitiva das armas.

Há oito meses, as Farc cumprem uma trégua unilateral, e o governo mantém suspensos os bombardeios contra esta organização de sete mil combatentes. Persiste, contudo, o conflito com a organização rebelde Exército de Libertação Nacional (ELN) e com grupos de origem paramilitar.

Nesta quinta-feira, Gómez voltou a insistir em seu chamado ao governo para que se abstenha de atuar sem consenso prévio na mesa de diálogo, a propósito da aprovação no Congresso da Colômbia de uma lei que permitirá a concentração e o desarmamento das Farc.

Gómez esclareceu que as partes não definiram as zonas na Colômbia onde os guerrilheiros permanecerão durante o processo de deposição das armas. "Isto não foi definido e nossa posição (...) é que tem de ser consensual", insistiu.

O grupo marxista questiona a intenção do governo de arrecadar doações internacionais de 3,3 bilhões de dólares para financiar os acordos de paz e alertou para o risco de que os recursos possam "ser investidos em programas assistencialistas, ou em paliativos que não resolvem os problemas de fundo".

"Os recursos de cooperação internacional projetados pelo governo parecem exíguos para a implementação efetiva do acordado, o que não exclui que possam se transformar no pomo da discórdia para a classe política", destacaram as Farc em um comunicado.

O conflito interno na Colômbia, que por mais de cinco décadas envolveu guerrilheiros, paramilitares e militares, deixou oficialmente 7,5 milhões de vítimas, incluindo 260.000 mortos, 45.000 desaparecidos e 6,6 milhões de deslocados.

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