Na Argentina não houve lua de mel.
No plano econômico essas medidas de choque para uma moeda sobrevalorizada durante muito tempo foram tomadas com o beneplácito dos mercados, do campo, dos exportadores gerando um clima favorável para a terceira economia da América Latina.
"Há um clima de distensão além do contexto crítico da economia. Com uma semana de governo, o saldo é muito positivo", disse à AFP o analista político e sociólogo Gustavo Córdoba.
Córdoba, contudo, advertiu que "tem que ver quais medidas são tomadas pelo governo para evitar a corrosão dos salários e o impacto nos setores mais relegados", em um país que o elegeu como presidente com 51% dos votos há menos de um mês.
Após um protesto que reuniu na quinta-feira dezena de milhares de manifestantes contra Macri, ficou evidente que a polarização é um grande desafio, considerando que o Congresso é controlado pela oposição kirchnerista.
"Se passou de um modelo de distribuição a um de acumulação", resumiu à AFP o analista Raúl Aragón.
Segundo o analista, "se requer tempo e paciência de todos os setores. Se não há um acordo social é muito difícil que o modelo funcione", alertou Aragón, argumentando que "o aumento do dólar e da taxa de juros produzirão um impacto inflacionário tremendo".
Sigilosos, mas sem histeria
Não houve corridas nem histerias na 'city' portenha apesar da desvalorização de 30%, a maior desde 2002, quando a paridade cambial vigente entre 1991 e 2001 chegou ao fim em meio a uma crise econômica e social sem precedentes.
No segundo dia com o dólar liberado, a divisa fechou nesta sexta em 13,60 pesos, reduzindo um pouco a desvalorização de quase 30% de quinta-feira.
Os argentinos estão autorizados agora a comprar até dois milhões de dólares por mês, mas o Banco Central fixou em 500 dólares mensais o limite máximo para comprar em dinheiro.
O economista Marcos Lavagna, da consultoria Ecolatina, destacou "como positivo que não tenha havido um desespero pelo dólar", uma verdadeira obsessão dos argentinos.
Ao fim do primeiro dia com o dólar livre, o ministro da Fazenda e Finanças, Alfonso Prat Gray, disse que estava "muito tranquilo". "Houve mais vendedores que compradores", afirmou.
O governo de Macri espera o ingresso de entre 15 bilhões e 25 bilhões de dólares nas próximas quatro semanas para reforçar as reservas, que rondam os 24 bilhões de dólares.
Após a eliminação dos impostos às exportações de cereais e carnes, e a redução de 35% para 30% no imposto sobre a soja, os produtores se comprometeram a liquidar 400 milhões de dólares por dia em três semanas.
Inflação e salários
Economistas preveem um difícil primeiro semestre para 2016. Se estima que em dezembro o aumento de preços ficará entre 3,5% e 4%, em um país com inflação de 30% ao ano.
Além disso, o salário mínimo de 5.588 pesos que equivalia até quarta-feira a 568 dólares, hoje é de 400 dólares.
Sindicalistas pediram ao governo o pagamento de um bônus de final de ano que compense a perda do poder aquisitivo do salário, pela desvalorização e pela espiral inflacionária.
Para tranquilizar os ânimos, o chefe de Gabinete, Marcos Peña, garantiu que "a prioridade passa por cuidar do bolso dos trabalhadores".
"É um momento difícil que tem que passar", disse o economista Orlando Ferreres, que pediu aos empresários "que moderem o aumento dos preços porque este governo é visto como o governo deles".
Segundo Aragón, o problema é que "Macri não entende nada de política. Ele acha que governar é administrar bem, mas isso é só uma parte", ressaltou.
Segundo o sociólogo, com a nomeação dos juízes da Corte sem passar pelo Senado, Macri "quis mostrar um gesto de força, mas ao ter que voltar atrás, acabou sendo um gesto de fraqueza".
Com a grande rejeição ao decreto para ocupar as vagas da Corte, Macri recuou, e cumprirá o rito constitucional. "Estou aberto a corrigir o que tiver para corrigir", garantiu nesta sexta.