Segundo a chanceler alemã, Angela Merkel, "pela primeira vez", há uma oportunidade de encontrar uma solução duradoura à questão dos refugiados.
Merkel disse ainda que está "otimista", ressaltando, porém, que "restam muitas coisas a fazer".
O plano em questão é polêmico do ponto de vista jurídico, uma vez que todos os migrantes que chegarem ilegalmente à Grécia pela Turquia deverão ser devolvidos a esse território.
Embora a UE se comprometa a acolher um refugiado sírio por cada uma das pessoas expulsas, para a ONU, ONGs e alguns Estados-membros do bloco, este mecanismo supõe uma expulsão coletiva, o que é proibido pelo direito comunitário.
"Tenho um otimismo prudente, mas, francamente, sou mais prudente do que otimista", resumiu nesta quinta-feira o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, encarregado de negociar em nome dos 28 com Ancara.
A proposta de Ancara surpreendeu o bloco, que há meses busca sua cooperação para frear as chegadas de migrantes. Em 2015, esse número chegou a um milhão de pessoas, e já somam mais de 150.000 este ano.
Na quarta-feira, a Comissão Europeia garantiu que o acordo respeitaria o Direito Internacional sobre a proteção dos refugiados e que todas as solicitações de asilo seriam analisadas individualmente, com a possibilidade de apelação após uma ordem de expulsão.
Mas não deixou de expressar dúvidas.
"O pacote proposto é muito complicado. Será muito difícil implementá-lo, e está no limite da legalidade internacional", considerou a presidente da Lituânia, Dalia Grybauskaite.
O chamado mecanismo "um por um", de troca de refugiados, seria limitado, inicialmente, a 72.000 refugiados, dos 2,7 milhões de sírios que já estão na Turquia, segundo as versões da declaração final que circulam nesta quinta em Bruxelas.
O objetivo do plano é acabar com a máfia e organizar a chegada de refugiados na Europa por vias seguras e legais, diminuindo, ao mesmo tempo, as chegadas de migrantes.
Chantagem
Em troca, a Turquia faz várias exigências à UE, incluindo três bilhões de euros de ajuda adicional até 2018 e um regime de isenção de vistos para os cidadãos que quiserem viajar na UE até o final de junho, além da abertura rápida das negociações sobre cinco novos capítulos de adesão.
Os críticos consideram que este projeto submeteria a UE aos ditames do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, amplamente criticado por suas tendências autoritárias.
As relações entre UE e Turquia estiveram sob tensão por um longo período em razão da questão do Chipre, dividido em dois desde a invasão da parte norte pela Turquia em 1974. A invasão foi em resposta a um golpe de Estado nacionalista que procurava ligar a ilha com a Grécia.
A República do Chipre, membro da UE, mas não reconhecido por Ancara, bloqueou seis capítulos principais das negociações desde 2009, provocando o congelamento do processo de adesão da Turquia à UE. Essa questão poderia tornar impossível um acordo entre as partes.
Neste contexto, o presidente cipriota, Nicos Anastasiadis, assegurou que seu país "não será um obstáculo, desde que tenhamos respeitado, desde o princípio, a condição de que cada candidato à adesão à UE" reconheça o governo da República do Chipre.
O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, assegurou que "a adesão da Turquia não está, de modo algum, na ordem do dia".
Esta semana, o presidente tcheco, Milos Zeman, acusou a Turquia de "chantagem", enquanto na França o primeiro-ministro Manuel Valls declarou que a cooperação com a Turquia é "indispensável (...) mas não podemos aceitar a menor chantagem".
"Não me sinto chantageado pela Turquia", rebateu Juncker, em uma entrevista ao jornal alemão Handelsblatt.
O premiê turco, Ahmet Davutoglu, chega nesta quinta-feira à meia-noite em Bruxelas. Antes de partir, Davutoglu declarou que a Turquia fez "uma proposta clara e honesta à UE", mas advertiu que "não se transformará nunca em uma prisão a céu aberto para os imigrantes".
No terreno, a tensão ainda é palpável na fronteira entre Grécia e Macedônia, onde milhares de imigrantes estão bloqueados desde 7 de março, em terríveis condições.
Em um "gesto simbólico", o artista chinês Ai Weiwei, que multiplica as ações para chamar atenção para os imigrantes que passam pela Grécia, teve o cabelo cortado por um sírio no acampamento superpopuloso de Idomeni, na fronteira com a Macedônia.
Já a atriz Angelina Jolie, que é embaixadora da Boa Vontade da Agência da ONU para os Refugiados, visitou um acampamento de refugiados sírios na ilha grega de Lesbos, principal acesso dos imigrantes à UE.