"Se o regime persiste em seus crimes, a presença de delegação do Alto Comitê de Negociações (ACN) não se justificará", afirmou Riad Hijab, coordenador desta coalizão, a principal da oposição, em uma declaração em árabe publicada na internet.
"A delegação comunicará a (o enviado especial da ONU para a Síria, Staffan) De Mistura sua intenção de se retirar das negociações se a ONU e as potências mundiais não puserem um fim a estes crimes", acrescentou Hijab, que não está em Genebra.
Os representantes do ACN chegaram a Genebra neste sábado, um dia depois da delegação do governo de Al Assad, que já manteve conversações preliminares com De Mistura.
O ACN, que se reunirá com De Mistura no domingo, por enquanto se nega a negociar, inclusive de forma indireta, com os representantes do regime.
Criado em dezembro, em Riad, o ACN, que reúne grupos de opositores políticos e representantes de grupos armados, se recusava a participar dessas negociações devido à situação humanitária catastrófica na Síria.
Sobre as negociações, o chefe da diplomacia russa, Serguei Lavrov, e o secretário de Estado americano, Jonh Kerry, concordaram em "avaliar os progressos" em 11 de fevereiro, segundo o ministério das Relações Exteriores da Rússia.
Por sua vez, o líder do principal partido curdo sírio PYD, Saleh Muslim, e outras autoridades curdas que estavam em Genebra à espera de serem convidados a participar nas negociações deixaram a Suíça.
"Vamos embora de Genebra porque não recebemos convite. Não nos sentiremos comprometidos com nenhuma decisão tomada em Genebra, incluindo um cessar-fogo", indicou uma fonte da delegação que não quis se identificar.
"Sem nós o processo (de Genebra) sofrerá o mesmo destino que as negociações precedentes", acrescentou a fonte, em referência ao fracasso das discussões em 2014.
Esperanças escassas
No terreno, a situação está piorando a cada dia, principalmente em Madaya, cidade perto de Damasco sitiada pelas forças do regime, onde 16 pessoas morreram de fome desde meados de janeiro, de acordo com a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF).
E os compromissos adotados para convencer o ACN a participar das discussões estão justamente relacionadas com a implementação das medidas humanitárias previstas na resolução 2254 do Conselho de Segurança da ONU para a suspensão dos bombardeios em áreas civis e um acesso humanitário às localidades sitiadas.
Os Estados Unidos, a Arábia Saudita e a França saudaram a decisão do ACN de participar das discussões, fazendo referência a esta resolução.
As negociações devem "alcançar uma transição política sem Assad e acabar com o sofrimento dos sírios", insistiu em um comunicado o chefe da diplomacia britânica, Philip Hammond.
A questão do destino do presidente Bashar al-Assad, visto pelo Ocidente como o carrasco de seu próprio povo, é uma das mais difíceis, uma vez que os russos e iranianos rejeitam a sua exclusão.
"Nenhum aspecto deve ser deixado de fora", ressaltou neste sábado seu colega francês, Laurent Fabius, para quem as discussões devem se concentrar no "direito humanitário" e na "transição política".
A ONU decidiu manter a abertura das discussões na sexta-feira, apesar da ausência do ACN e de Mistura se reuniu com a delegação de Damasco liderada pelo embaixador sírio na ONU, Bashar Jaafari, e que conta com cerca de quinze pessoas.
O encontro, descrito pelo enviado da ONU como uma "reunião preparatória", marcou o pontapé inicial de um diálogo inter-sírio simbólico, organizado após uma grande pressão internacional e que deve durar seis meses.
As grandes potências esperam que os sírios consigam pôr fim a uma guerra que deixou mais de 260.000 mortos e milhões de refugiados e deslocados desde março de 2011.
De acordo com o roteiro, fixado em uma resolução da ONU em dezembro, os sírios precisam concordar sobre um corpo transitório para organizar eleições em meados de 2017.
As esperanças de sucesso são escassas, dada a extrema complexidade da questão e a participação direta ou indireta de uma dúzia de países no conflito.
As discussões adiante, apesar da emergência humanitária, serão difíceis.
Por outro lado, a Turquia denunciou que um avião russo Su-34 violou seu espaço aéreo, apesar das reiteradas advertências e o presidente turco Recep Tayyip Erdogan alertou a Rússia contra "iniciativas irresponsáveis" que comprometem "a paz regional e mundial".