Um início modesto, sem cerimônia nem discurso, para este diálogo organizado sob grande pressão pela comunidade internacional.
Está previsto que estas negociações inter-sírias, que buscam por fim a uma guerra que deixou mais de 260.000 mortos e milhares de refugiados desde março de 2011, durem seis meses.
No entanto, começam em meio a uma grande confusão e com a ausência de grupos chave da oposição síria que exigem como condição para sua participação uma melhora da situação humanitária na Síria.
Este grupo, o Alto Comitê de Negociações (ACN), formado em Riad, exige a melhora da situação humanitária antes de voltar à Suíça.
Segundo Bettina Luescher, porta-voz do Programa Mundial de Alimentos (PAM), 18 zonas na Síria estão sitiadas e mais de 4,6 milhões de pessoas têm pouco ou nenhum acesso à ajuda humanitária.
"O PAM pede que todos os atores e organizações humanitárias tenham acesso a estas zonas para entregar ajuda de urgência, comida, água e medicamentos", disse ante a imprensa a partir de Genebra.
Com quais opositores falar?
O ACN, conhecido como o grupo de Riad, foi criado em dezembro para reunir os principais grupos rebeldes, tanto organizações armadas quanto os partidos políticos, ante a perspectiva destas negociações.
Conta com o apoio de Arábia Saudita, Catar e França, mas é impugnado pela Rússia, aliada do regime de Damasco, que denuncia a presença de terroristas em seu seio, principalmente o chefe negociador Mohamed Allouche, representante do grupo salafista Jaish al-Islam.
Além disso, outros opositores, que não contam com o apoio de Riad, mas que foram convidados a título pessoal pela ONU, já se encontram em Genebra e estão determinados a participar das negociações, ao mesmo nível que o grupo de Riad, o que aumenta a confusão.
Outra das perguntas é o tema da representação dos curdos. O PYD, o principal partido curdo, não foi convidado às negociações, para desgosto de Moscou.
O PYD sírio - considerado pela Turquia um braço do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), o inimigo número um de Ancara - luta em terra contra os jihadistas do grupo Estado Islâmico (EI), mas a oposição síria o acusa de complacência com o regime de Damasco.
A ONU previu negociações indiretas, com as partes em salas separadas e os emissários passando de uma a outra levando as propostas.
Rohani cético
Pouco antes do início das discussões, algumas dezenas de manifestantes se reuniram nesta sexta à tarde em frente à sede da ONU em Genebra para gritar: "Assad, Al-Qaeda, mesmos métodos, mesmo combate". "Assad não é a solução para o terrorismo, ele é a causa", acrescentaram.
As potências ocidentais, que por muito tempo exigiram a saída do presidente acusado de ser o carrasco do próprio povo, flexibilizou seu discurso frente ao crescimento do grupo Estado Islâmico (EI), considerado atualmente a principal ameaça.
Uma coalizão liderada pelos Estados Unidos realiza ataques aéreos contra posições do grupo jihadista no Iraque e na Síria. E nesta sexta-feira, a Holanda anunciou que se juntará aos ataques no país.
Neste contexto, o presidente iraniano, Hassan Rohani, considerou que a resolução política da crise na Síria vai levar tempo, e não se deve ser muito otimista sobre o sucesso de uma solução negociada."É nossa esperança ver essas negociações serem concluídas o mais rapidamente possível. Mas duvido que acabe rápido, porque na Síria há grupos que estão lutando contra o governo central, mas também entre si. Também há interferências nos assuntos internos da Síria", afirmou aos veículos de comunicação franceses France 24, Le Monde e France Culture.