Após dois dias de negociações, o ex-chefe de Estado, de 70 anos, membro fundador do Partido dos Trabalhadores, selou com Dilma o acordo que volta a colocar em primeiro plano o homem forte do partido.
A partir de terça-feira, Lula substituirá Jaques Wagner, que assumirá a chefia de gabinete da presidente.
Legisladores do PT tinham antecipado a notícia de que, segundo a imprensa, a chegada de Lula precede uma reforma ministerial mais ampla. Fontes do Planalto informaram à AFP que a intenção é formar um "governo de notáveis", com a volta de alguns nomes que ocuparam cargos ministeriais durante os dois mandatos de Lula entre 2003 e 2010.
O ex-presidente terá a tarefa imediata de conter uma potencial diáspora de aliados da coalizão do governo, que lhe permita bloquear um pedido de impeachment contra Dilma pelo Congresso por suspeita de adulteração de contas públicas, enquanto ele próprio é alvo de investigações ligadas ao esquema de corrupção na Petrobras.
Ícone da esquerda latino-americana, Lula antecipou que será candidato às eleições presidenciais de 2018.
Fuga
A oposição considerou que a entrada de Lula no governo é, sobretudo, uma manobra para protegê-lo das investigações do juiz Sérgio Moro, encarregado da 'Operação Lava Jato'.
"Ao invés de dar explicações e assumir responsabilidades, o ex-presidente Lula preferiu fugir pela porta dos fundos. Vai assumir um ministério para garantir o foro privilegiado (...) É uma confissão de culpa e um tapa na cara da sociedade. A presidente Dilma, ao convidá-lo, torna-se sua cúmplice", afirmou o líder do oposicionista PSDB na Câmara dos Deputados, Antonio Imbassahy.
"O capítulo final desta história será seu impeachment", acrescentou.
O Supremo Tribunal Federal delibera nesta tarde para definir o formato em que deve tramitar o julgamento político, o que destravará o processo congelado por recursos judiciais. Esta decisão habilitaria a Câmara dos Deputados a instalar a comissão que analisará em primeiro lugar se há argumentos para iniciar o processo.
No fim de semana passado, o principal aliado da coalizão de governo, o PMDB, anunciou que poderia romper a aliança, fragilizando ainda mais a presidente Dilma.
Seus críticos afirmam que Lula voltará a chefiar o governo e que a presidente não poderá evitar passar ao papel de coadjuvante.
"O ex-presidente inicia na Casa Civil seu terceiro mandato e a presidente termina seu segundo. Não há como fazer outra leitura, isto é grave. Acho que o governo se afunda ainda mais (...) A enorme rejeição da presidente Dilma se soma agora à rejeição do presidente Lula", disse Álvaro Dias, senador do Partido Verde.
Enquanto o PT acende velas para que o pai do milagre brasileiro reanime a atribulada gestão de Dilma, o país patina em uma recessão econômica que se encaminha para ser a pior em um século. O PIB encolheu 3,8% em 2015 e as previsões do mercado são de que cairá outros 3,5% em 2016, enquanto o desemprego atinge 7,6% e a inflação supera os dois dígitos.
O mercado quase não passou recibo da novidade política. Quase três horas depois do primeiro anúncio, a bolsa de São Paulo recuava 0,11% a 47.079 pontos e o real se depreciava 0,69%, a 3,79 por dólar.
Mar de lama
Em Brasília, ainda ressoam as acusações de corrupção feitas pelo ex-líder do governo no Senado, Delcídio Amaral, acusado de obstruir as investigações da 'Lava Jato', que foram divulgadas na terça-feira e respingaram em grande parte do espectro político, inclusive em Lula e Dilma.
Em seu depoimento, Amaral disse que Dilma mandou suborná-lo para que não fizesse delação premiada e que Lula tentou interferir no caso.
Segundo Amaral, o ministro da Educação, Aloízio Mercadante, teria insinuado um apoio em troca de que não colaborasse com as autoridades, mas ele teria desconsiderado a oferta e decidiu delatar outros envolvidos em troca de uma redução de sua eventual pena.
Sua delação foi aceita pelo Supremo, dando luz verde à Procuradoria-geral da República para iniciar investigações sobre os citados, entre eles o líder da oposição, senador Aécio Neves (PSDB), derrotado por Dilma nas eleições de 2014, e o vice-presidente, Michel Temer.
Em um clima de comoção pública, aprofundado por uma manifestação multitudinária que levou às ruas milhões de pessoas no domingo passado para pedir a saída de Dilma, o PT responderá com uma manifestação para a sexta-feira, que será prova do apoio social com que a impopular Dilma Rousseff ainda pode contar.