"Decidi, depois de uma reunião com os presidentes da Assembleia Nacional e do Senado, encerrar o debate constitucional", disse Hollande, antes de reconhecer que um compromisso está "fora de alcance" sobre a retirada da nacionalidade.
A medida foi objeto de polêmica e as duas câmaras do Parlamento não conseguiram chegar a um acordo sobre o texto, condição obrigatória para reformar a Constituição.
Hollande propôs a reforma às duas Câmaras reunidas no Congresso imediatamente depois dos atentados de Paris. Na ocasião ele foi aplaudido pela grande maioria dos parlamentares.
Mas depois do anúncio da proposta, o país registrou quatro meses de debates acalorados, em particular sobre a possibilidade de retirada da nacionalidade.
A princípio, o projeto previa a retirada da nacionalidade apenas para os franceses que tivessem outra nacionalidade, o que foi muito criticado como medida que criava duas categorias de cidadãos.
Finalmente passou a ser prevista a perda de nacionalidade para todos os autores de "crimes terroristas".
A medida, no entanto, era apenas teórica, já que a legislação internacional proíbe a criação de apátridas.
Mas foi com base neste princípio, a proibição de criar apátridas, que o Senado, no qual a oposição de direita tem maioria, alterou o texto da Assembleia e o condenou de fato.
"Constato hoje que a Assembleia Nacional e o Senado não conseguiram chegar a um acordo e que um compromisso parece fora de alcance sobre a definição da retirada de nacionalidade para os terroristas", disse Hollande em um discurso solene após uma reunião do Conselho de Ministros.
"Constato ainda que uma parte da oposição é hostil a qualquer revisão constitucional, seja esta sobre o estado de emergência ou inclusive sobre a independência da magistratura. Lamento profundamente esta atitude, já que devemos fazer todo o possível nas circunstâncias que conhecemos, que são graves, para evitar as divisões", completou.
O presidente socialista não fez referência de fato ao debate a respeito da retirada de nacionalidade, que também dividiu profundamente a esquerda e que provocou a saída do governo da ministra da Justiça Christiane Taubira.
Três dias depois dos atentados de 13 de novembro (130 mortos), reivindicados pelo grupo Estado Islâmico, "propus uma revisão da Constituição para garantir uma melhor utilização do estado de emergência e para privar de sua nacionalidade francesa os terroristas que pegam em armas contra seu próprio país", recordou Hollande.
O presidente ressaltou que "a ameaça é maior do que nunca" e citou, além de Paris, os atentados recentes em Bruxelas e Lahore.
"O terrorismo islamita nos declarou guerra, contra a França, a Europa, o mundo inteiro", disse, antes de afirmar que a "guerra será longa".
A renúncia à reforma constitucional por parte de Hollande foi considerada um sério revés político e o presidente foi criticado tanto pela oposição de direita, assim como pela esquerda.