Estudantes marcham durante protesto contra a reforma trabalhista na França, na cidade de Bordeaux, em 31 de março de 2016 Estudantes marcham durante protesto contra a reforma trabalhista na França, na cidade de Bordeaux, em 31 de março de 2016

Distúrbios e confrontos marcaram essa quinta-feira na França durante as greves e manifestações convocadas em todo o país contra um projeto de reforma trabalhista do governo socialista, iniciativa acusada de promover a precarização das relações de trabalho.

Segundo os sindicatos 1,2 milhão de pessoas em toda a França foram às ruas para protestar.

As estimativas oficiais indicam pelo menos 270.000 manifestantes no país.

Esses números superam com folga os da manifestação anterior, no dia 9 de março, quando 450.000 pessoas foram às ruas, segundo os organizadores, e 200.000 segundo fontes oficiais.

No total mais de cem pessoas foram detidas em Paris, em Nantes, Rennes e Rouen (oeste), assim como em Toulouse (sul), nos combates entre a polícia e os manifestantes.

O presidente francês, François Hollande, e seu governo batem de frente com o movimento social um dia depois de ter sofrido um duro revés político com a rejeição de um projeto de reforma constitucional.

O texto da reforma trabalhista, considerado muito 'liberal' pelos sindicatos de trabalhadores e de estudantes, já foi emendado antes mesmo do debate no parlamento.

Embora alguns sindicatos reformistas tenham aceitado algumas emendas, outros, mais radicais, pedem a retirada do projeto completo e convocaram essas greves e manifestações em todo o país.

Os estudantes secundaristas, muito ativos em protestos anteriores, estão entre os principais críticos, por temerem que o projeto generalize a precariedade das relações de trabalho.

Dezenas de escolas foram bloqueadas na manhã dessa quinta-feira por estudantes e outras foram fechadas para evitar "desdobramentos".

Milhares de pessoas saíram às ruas para protestar, carregando cartazes em que se podia ler: "Não toque no meu código (trabalhista)".

A ministra do Trabalho, Myriam El Khomri, reiterou que "compreendia as preocupações dos jovens", mas defendeu uma "lei necessária e justa".

"De modo algum se vai retirar esta reforma inteligente, audaz e necessária", declarou nesta quinta-feira o primeiro-ministro socialista Manuel Valls.

As greves afetam sobretudo os transportes (metrô, trens) enquanto que o transporte aéreo também foi prejudicado pela greve dos controladores aéreos.

A emblemática Torre Eiffel de Paris permanecia fechada devido aos protestos, segundo a companhia que administra o monumento.

Dezenas de milhares de jovens e trabalhadores protestaram no dia 24 de março contra esse projeto, que foi apresentado como a grande reforma do final do mandato de cinco anos (2012-2017) do presidente socialista François Hollande.

Maior flexibilidade

A reforma prevê maior flexibilidade no mercado de trabalho, em um país onde o desemprego é superior aos 10% e em que as pequenas e médias empresas hesitam em contratar funcionários devido ao que consideram leis rigorosas.

Além disso, pretende conferir uma maior margem de negociação às empresas, em especial sobre a duração do tempo de trabalho, e flexibilizar as normas sobre demissões por razões econômicas.

Diante dos protestos dos sindicatos e apesar das críticas das organizações sindicais, o governo renunciou às medidas mais criticadas, como a instauração de um máximo de indenização em caso de demissão abusiva.

A magnitude da mobilização servirá de teste para o governo socialista e para o presidente Hollande, muito fragilizados pela hostilidade de parte dos eleitores de esquerda diante dessa reforma, a 13 meses da eleição presidencial em 2017.

Esse dia de protestos acontece pouco depois de Hollande sofrer um humilhante revés político.

Por falta de consenso político, Hollande se viu obrigado a enterrar na última quarta-feira uma reforma constitucional que havia anunciado após os atentados de Paris, em novembro.

O texto fracassou devido a uma medida muito polêmica sobre a retirada da nacionalidade aos binacionais condenados por crimes terroristas, que o presidente francês queria incluir na Constituição.

Este revés político, o mais grave sofrido por Hollande em quatro anos de presidência, prejudica ainda mais suas possibilidades de ser reeleito em 2017 para um segundo mandato.

Segundo a pesquisa Ipsos-Sopra Steria, publicado na quarta-feira, Hollande seria eliminado já na primeira volta da eleição presidencial, seja quem for seu adversário de direita.

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