Joaquín Gómez, negociador de paz das Farc, em Havana, no dia 13 de janeiro de 2016 Joaquín Gómez, negociador de paz das Farc, em Havana, no dia 13 de janeiro de 2016

As Farc fizeram suspense sobre o compromisso assumido com o governo colombiano de assinar um acordo de paz definitivo em 23 de março, porque, segundo a guerrilha, há "obstáculos importantes" na negociação retomada na quarta-feira em Havana.

Após o recesso de fim de ano, as partes retornaram à mesa de diálogo sob a expectativa dos colombianos de concretizar em pouco mais de dois meses o acordo para por um fim a meio século de luta armada.

No entanto, as Farc consideram quase impossível cumprir o prazo com que tinham se comprometido com o presidente Juan Manuel Santos em setembro, em Havana.

"Estamos fazendo até o impossível, mas há causas ou fatores objetivos que certamente vão impedir que isto aconteça no 23" de março, disse à imprensa Joaquín Gómez, negociador de paz do grupo comunista.

O líder rebelde reforçou que ainda resta superar obstáculos nas conversações celebradas com o governo há mais de três anos em Cuba.

"Há obstáculos tão importantes quanto é o esclarecimento e o desmantelamento do paramilitarismo", destacou Gómez, em alusão aos grupos clandestinos de ultradireita que combatem a guerrilha há décadas.

O pronunciamento vai de encontro ao esforço de Santos de "acelerar" as negociações com vistas a assinar o acordo definitivo em março.

Nossos negociadores têm "instruções muito claras: pisar no acelerador do processo para que ponhamos um fim o mais rápido possível a este conflito que tanto mal fez ao nosso país", disse Santos na semana passada.

O conflito colombiano, que começou com um levante camponês, é um dos mais prolongados do mundo e deixou 220 mil mortos e seis milhões de deslocados.

Depois as diferenças que atrasaram o acordo sobre as vítimas, anunciado em 15 de dezembro, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) já tinham expresso seu ceticismo sobre o cumprimento do prazo para firmar o acordo final.

"Insistir no 23 de março como data limite dos diálogos, depois da demora do acordo" sobre as vítimas "é uma ingenuidade", escreveu na terça-feira em sua conta no Twitter Iván Márquez, negociador chefe da guerrilha.

Joaquín Gómez, por sua vez, esclareceu que as Farc continuarão trabalhando para chegar a um acordo mesmo sendo impossível concretizá-lo nesta data.

"Temos feito um grande esforço e vamos continuar fazendo, mas são coisas que saem das nossas mãos", disse.

As Farc e o governo fecharam parcialmente quatro dos seis pontos acordados na negociação: a questão agrária, o cultivo e o tráfico de drogas ilícitas, e a participação política dos guerrilheiros assim que as armas forem depostas.

Resta definir o fim do confronto - que inclui o desarmamento da guerrilha - e a implementação e referendamento dos convênios.

Para Santos e a guerrilha, o tema mais espinhoso ficou praticamente resolvido com o acordo de dezembro, que prevê a reparação das vítimas e a punição dos responsáveis por crimes atrozes durante o conflito, incluindo agentes do Estado.

Entretanto, as Farc aproveitaram a retomada dos diálogos para voltar a criticar o governo pelos "atrasos" que impediram a libertação de 30 guerrilheiros indultados por Santos em 22 de novembro, segundo Joaquín Gómez.

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