Membros do PT e da CUT participam de manifestação em apoio ao ex-presidente Lula, em São Paulo, no dia 18 de março de 2016 Membros do PT e da CUT participam de manifestação em apoio ao ex-presidente Lula, em São Paulo, no dia 18 de março de 2016

A esquerda brasileira quer dar um sinal de força nesta sexta-feira e de resistência às investidas políticas contra a presidente Dilma Rousseff e judiciais contra o ex-presidente Lula, pondo à prova a mobilização de suas bases, cinco dias depois de um protesto que levou três milhões de pessoas às ruas em protestos contra o governo.

Em São Paulo, a concentração está prevista para começar às 16h00 na Avenida Paulista, centro de São Paulo, a alguns metros de onde, na manhã desta sexta-feira, a polícia desalojou com jatos d'água e bombas de efeito moral 150 manifestantes da oposição que ocupavam a via desde a quarta-feira, quando a crise política se acirrou.

Os organizadores da manifestação pró-governo - o Partido dos Trabalhadores (PT), a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e diversas organizações sociais - pediram na véspera que as forças de segurança "garantam o direito de todos" de se expressar publicamente.

Nos últimos dias, já ocorreram alguns incidentes entre defensores e opositores ao governo, e a proximidade física entre os dois grupos despertava o temor de confrontos.

A mobilização foi convocada em 30 cidades "em defesa da democracia, dos direitos da classe trabalhadora e contra o golpe", em alusão ao processo de impeachment de Dilma Rousseff, que já está sendo debatido na Câmara dos Deputados.

Os organizadores da marcha governista esperam reunir cem mil pessoas na capital paulista, menos de 10% do 1,4 milhão que protestaram no domingo para pedir a renúncia da presidente Dilma.

"Cem mil pessoas na Paulista seria um número extraordinário", admitiu o presidente do PT de São Paulo, Emidio de Souza. "Estamos em um momento em que se está criminalizando a ação política. Este movimento [opositor] está dando espaço a grupos nazifascistas", acrescentou.

Em Maceió, no nordeste - reduto do ex-presidente Lula (2003-2010) -, vários milhares de pessoas se manifestaram agitando bandeiras vermelhas do PT e repetindo palavras de ordem em apoio a Dilma.

A crise política que castiga o Brasil, juntamente com a recessão econômica, ofuscaram a imagem de um país emergente pujante, que se prepara a sediar os Jogos Olímpicos do Rio, em agosto.

Corrida contra o relógio para o impeachment

A crise agravou-se esta semana em todas as frentes após a nomeação de Lula, investigado por ocultação de patrimônio no âmbito do escândalo na Petrobras, como chefe da Casa Civil.

Lula, de 70 anos, foi chamado a ajudar sua herdeira política e sucessora a recompor a base aliada, que está naufragando, para bloquear um processo de impeachment no Congresso.

A Câmara dos Deputados celebrou nesta sexta-feira a primeira das quinze sessões previstas para que a comissão especial recomende a abertura ou o arquivamento do pedido de impeachment.

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, disse que a Comissão pode dar seu parecer em "30 dias".

"É melhor que seja rápido para que o país possa conhecer sua verdadeira agenda. Não podemos ficar com uma agenda única que seja a do impeachment (...) Poderia ser em trinta dias", disse Cunha, adversário declarado de Dilma.

A posse de Lula tem sido questionada por liminares na Justiça, baseadas na suspeita de que o ex-presidente, ao assumir um cargo ministerial, pretendia, acima de tudo, obter o foro privilegiado para se livrar do juiz Sérgio Moro, encarregado das investigações sobre o esquema de corrupção na Petrobras.

Um total de doze juízes apresentaram recursos para tentar bloquear que assuma suas funções.

A divulgação do grampo de uma conversa telefônica entre Lula e Dilma avivou esta suspeita e gerou novos protestos, principalmente em São Paulo e Brasília.

Dilma repudiou estas versões e criticou a divulgação do diálogo pelo juiz Moro.

"O presidente tem garantias constitucionais e [seu telefone] não pode ser grampeado, a não ser que seja com autorização expressa da Suprema corte do país. Em muitos lugares do mundo, quem grampear o presidente, vai preso (...) É por isso que vou tomar todas as providências cabíveis neste caso", declarou Dilma, em ato em Feira de Santana (Bahia).

Antes de sua nomeação como ministro, Lula tinha previsto participar das marchas de São Paulo, mas seus assessores, contatados pela AFP, não confirmaram até agora a presença do ex-presidente.

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