Como uma taxa de desemprego superior a 20%, centenas de pessoas ficaram sem emprego a cada dia e vivendo em uma desigualdade cada vez maior, assim a sociedade espanhola abandonava sua apatia política. Em 2011, foram registradas mais de 21.000 manifestações no país.
Em 15 de maio, sob o céu azul de Madri, milhares de pessoas atenderam ao chamado e ocuparam a praça central da Porta do Sol, onde montaram um acampamento improvisado que se recusaram a abandonar como haviam feito semanas antes os egípcios na praça Tahrir, no Cairo.
Nos dias seguintes, foram organizados acampamentos nas praças de todo o país, de Barcelona até Sevilha e de Valência a Vigo. Nascia assim o movimento contestatório que acabaria sendo conhecido como os "indignados" ou 15-M.
Meses depois, em outubro, o movimento cruzava fronteiras e eram reproduzidas manifestações similares em Roma ou Nova York, onde nasceu "Occupy Wall Street".
Os manifestantes, rotulados de "anti-sistema" pela direita, buscavam uma mudança radical que transcendia as ideologias e centravam a sua ira na classe política e econômica com lemas como "Não somos mercadoria nas mãos de políticos e banqueiros".
"Uns se consideram mais progressistas, outros mais conservadores (...) mas todos estamos preocupados e indignados com o panorama político, econômico e social", dizia o manifesto "Democracia Real YA".
Nova era política
Até junho, a Porta do Sol de Madri se transformou em um alegre acampamento cheio de barracas, desfiles, cartazes de reivindicação e dezenas de assembleias e debates sobre como construir um futuro melhor.
"Foi um acontecimento maiúsculo que se tornou um novo ciclo político e histórico", avalia o sociólogo de esquerda Jaime Pastor. Para ele, este movimento, nascido com os socialistas no poder, demonstrou a separação entre os cidadãos e a classe governante.
Mas em novembro de 2011, a direita chegou ao governo com uma maioria esmagadora e realizou políticas contrárias ao que tinham proposto: aumento dos impostos, austeridade draconiana e um resgate do setor bancário com dinheiro público.
Os indignados continuaram se manifestando até às portas das casas de políticos, importando a "destruição" argentina para a Espanha.
Foi só com a chegada do Podemos - fundado no início de 2014 por um grupo de professores universitários inspirados pela esquerda latino-americana - que os "indignados" viram concretizadas parte de suas aspirações.
Com os indignados, "foi recuperada a concepção da política como ferramenta de mudança", disse o deputado ecologista Juan López de Uralde, antigo dirigente do Greenpeace na Espanha, agora do Podemos.
O primeiro golpe chegou nas municipais de maio de 2015, quando plataformas que tinham afinidade com o 15-M tomaram numerosos municípios, entre eles Madri e Barcelona, dirigida pela carismática ativista anti-despejos Ada Colau.
Nas legislativas de dezembro de 2015, este partido de esquerda radical "populista" segundo os conservadores, se tornou a terceira força política atrás do Partido Popular e dos socialistas do PSOE e tem agora de 69 deputados.
Outro partido crítico à corrupção, o Ciudadanos (centro-direita), entrou em um Congresso radicalmente transformado, com 211 novos deputados de 350.
Mas a fragmentação política impossibilitou a formação de um governo e as eleições deverão ser repetidas em 26 de junho.
Ainda assim, "estão conseguindo muitas coisas", comemora Tristán Duanel, militante do Podemos. "Os jovens já se colocam nos partidos (...) Pouco a pouco estão assumindo as teses dos indignados sobre regeneração e transparência", inclusive pela direita.
Mas "a mudança é lenta", admite. "Tem que ser feito algo em nível europeu".
Para Jaime Pastor, iniciativas como o movimento Plano B para a Europa, do ex-ministro grego Yanis Varoufakis, e o francês "Nuit Debout" (Noite de Pé) são extensões do 15-M.
"Estes movimentos pertencem a uma mesma família", opina também o sociólogo francês Michel Wieviorka: ocupam o "vazio" deixado pelos socialistas "direitizados", "querem que as coisas vão de baixo para cima" e "recorrem a novas formas de deliberação".