Este passo inicial para destituir Dilma, cuja gestão é aprovada por apenas 10% da população, afunda a sétima economia do mundo em uma crise de fim desconhecido a apenas oito meses dos Jogos Olímpicos do Rio-2016, num momento em que o país atravessa uma profunda recessão que, segundo todos os prognósticos, será a mais longa desde 1930-1931.
"Estamos estudando uma série de medidas que têm por objetivo impedir a instauração do processo (...) Vamos apresentá-las ao tribunal, por abuso de poder (de Cunha) e utilização da estrutura do Poder Legislativo para se defender", disse à AFP o deputado do PT Paulo Pimenta.
Espera-se que Cunha apresente formalmente ao plenário sua decisão nesta quinta-feira e peça a formação de uma comissão especial de 66 membros, que avaliará se deve prosseguir ou ser arquivada. Uma vez instaurado este corpo legislativo, Dilma terá 10 sessões para se defender.
Posteriormente, o plenário da Câmara deverá votar a moção, que será aprovada se 342 dos 513 deputados levantarem sua mão afirmativamente, em cujo caso passará ao Senado, onde será realizado o julgamento político propriamente dito.
Caso os deputados deem continuidade ao processo, a presidente será afastada de suas funções por um máximo de seis meses enquanto o Senado a julga. Para escapar de uma destituição, Dilma deverá ser apoiada por 54 dos 81 integrantes do Senado.
Xeque na rainha
Cunha, um legislador evangélico afeito ao cálculo e a jogar forte, fundamentou sua decisão em gastos autorizados por decreto que indicam uma violação da lei de Orçamento e constituem um "crime de responsabilidade", figura que só se aplica a funcionários públicos.
A aceitação deste pedido afunda o Brasil em uma etapa turbulenta após um 2015 negativo. "O ano que não existiu", definiu em uma nota o financista André Perfeito.
O cientista político David Fleischer, por sua vez, acredita que à medida que os meses passarem a pressão sobre a atribulada figura presidencial aumentará.
"É possível que o impeachment de Dilma só possa terminar em junho de 2016, pouco antes do início da campanha pelas eleições municipais. E é ainda mais provável que a desgastada imagem do PT piore a ponto de tentar convencer a presidente a renunciar", disse em um documento escrito.
Cunha encarnou os piores temores do Palácio do Planalto: investigado pelo Ministério Público por ter cobrado subornos para facilitar negócios da Petrobras, decidiu "morrer atirando", em palavras de assessores de Dilma.
Cunha, que ironicamente pertence ao PMDB, em cujas fileiras também figura o vice-presidente Michel Temer, apertou o gatilho no mesmo dia em que o PT disse que seus três deputados no conselho de ética do Congresso apoiariam que seja investigado por ocultar multimilionárias contas na Suíça, algo que pode terminar com seu mandato.
"Está declarada a guerra contra aqueles que não querem que o país funcione (...). Estamos preparados para enfrentar este processo", disse José Guimarães, líder do governismo na Câmara de Deputados, à margem da agitada noite de quarta-feira.
Chantagem
E a guerra entre Dilma e Cunha agora é televisionada.
A presidente disse na noite de quarta-feira aos brasileiros que não aceitará ser chantageada e mencionou uma suposta negociação dos votos do PT no conselho de ética em troca de arquivar o pedido de impeachment.
"A presidente mentiu", insistiu Cunha várias vezes nesta quinta-feira. "Não existe esta história de (...) que alguém está fazendo algum tipo de chantagem (...). O governo tem muito para explicar à sociedade", acrescentou.