O representante da ONU na Colômbia, Fabrizio Hochschild, durante entrevista à AFP, em Bogotá, no dia 24 de fevereiro de 2016 O representante da ONU na Colômbia, Fabrizio Hochschild, durante entrevista à AFP, em Bogotá, no dia 24 de fevereiro de 2016

O acordo de paz na Colômbia pode exigir "mais tempo" do que os dias que restam até 23 de março - disse o representante local da ONU, Fabrizio Hochschild, que espera que o pacto com as Farc seja firmado "na primeira metade deste ano".

"Tomara que haja declarações em 23 de março que mostrem que (...) os negociadores seguem em um ritmo intenso produzindo acordos", afirmou Hochschild, em entrevista à AFP.

"Mas acho que é possível que, para chegar ao acordo final, com todos os detalhes resolvidos, sobre todos os pontos, incluindo o ponto de implementação, talvez se vá precisar de um pouco mais de tempo", acrescentou.

O governo de Juan Manuel Santos e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) estabeleceram 23 de março como data-limite para selar um acordo definitivo de paz. O acordo está sendo negociado desde novembro de 2012 com mediação de Havana para acabar com mais de meio século de conflito armado.

Principal e mais antiga guerrilha do país, as Farc surgiram em 1964 de uma revolta camponesa, com cerca de 7.000 combatentes, segundo números oficiais.

"A expectativa de muitos é que se chegue à assinatura talvez na primeira metade deste ano", afirmou o coordenador residente e humanitário da ONU na Colômbia.

Em 6 de março, ele deixa o país depois de três anos para ocupar um novo cargo em Nova York. Lá, vai preparar a cúpula sobre os refugiados prevista para acontecer em setembro.

"Pôr datas precisas é uma faca de dois gumes", comentou este funcionário anglo-chileno.

Por um lado - afirmou -, "ajuda a assegurar que a negociação avança" e, por outro, "os pontos pendentes são de uma complexidade enorme".

Reta final

Até agora, o governo e as Farc chegaram a consensos parciais em quatro dos seis pontos da agenda: desenvolvimento agrário, solução para o problema das drogas ilícitas, participação política dos rebeldes e indenização e justiça para as vítimas.

Ainda falta acertar os termos do fim do conflito, os quais incluem o cessar-fogo bilateral e definitivo, baixar as armas, a reincorporação social dos guerrilheiros, assim como a forma como se irá referendar os acordos. Para legitimar o pacto final, o presidente Santos defende um plebiscito, enquanto as Farc querem uma assembleia constituinte.

"Esta última etapa vai ser muito difícil. É como o último quilômetro de uma maratona", advertiu Hochschild.

Diferentemente dos três frustrados processos de paz anteriores com a guerrilha, "há confiança em que, desta vez, se vai chegar a um acordo".

O representante da ONU saudou a iniciativa de Santos de reunir diversas correntes políticas em uma coalizão pela paz.

É importante "garantir que esta oportunidade de uma mudança histórica (...) não vai ser perdida" pela "polarização", a qual "vai piorar" com a campanha para a eleição presidencial de 2018, advertiu.

"A reconciliação é um trabalho de muitos anos e não chega com a assinatura de um acordo (...), significa uma mudança de postura dos líderes do país", completou.

Uma década para construir paz

Para Hochschild, construir a paz supõe "implementar acordos muito sofisticados" em "lugares remotos, onde há falta de infraestrutura (...) de instituições (...), e onde há problemas de outros atores armados", envolvidos, sobretudo, no tráfico de cocaína. Primeiro produtor mundial de folha de coca, a Colômbia exportou 442 toneladas em 2014, segundo a ONU.

Um bem-sucedido processo de paz com as Farc "vai ajudar, primeiro, a reorientar os esforços da força pública para combater outros grupos armados (...) e, segundo, para criar oportunidades lícitas" nas regiões, completou, acrescentando que 70% dos cultivos de coca - insumo base da cocaína - estão em zonas de "influência, ou controle, das Farc".

"A assinatura (do acordo) é um passo em um longo caminho, um marcador muito importante no caminho, mas a construção da paz é um trabalho enorme, de dez anos", completou.

Sobre a segunda guerrilha ativa na Colômbia, o Exército de Libertação Nacional (ELN), que não aderiu ao processo de paz apesar dos apelos de Santos, comentou que "está a dois passos" de iniciar uma negociação formal e manifestou sua esperança de que isso aconteça em breve.

Envolvendo guerrilhas, paramilitares e forças militares, o conflito na Colômbia já deixou 7,5 milhões de vítimas, entre elas 260.000 mortos, 45.000 desaparecidos e 6,6 milhões de deslocados, de acordo com o último balanço oficial.

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